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Geólogo e professor aposentado, trabalho este espaço como se participasse da confecção de um imenso tapete persa. Cada blogueiro e cada sitiante vai fazendo o seu pedaço. A minha parte vai contando de mim e de como vejo as coisas. Quando me afasto para ver em perspectiva, aprendo mais de mim, com todas as partes juntas. Cada detalhe é parte de um todo que se reconstitui e se metamorfoseia a cada momento do fazer. Ver, rever, refletir, fazer, pensar, mudar, fazer diferente... Não necessariamente melhor, mas diferente, para refazer e rever e refletir e... Ninguém sabe para onde isso leva, mas sei que não estou parado e que não tenho medo de colaborar com umas quadrículas na tecedura desse multifacetado tapete de incontáveis parceiros tapeceiros mundo afora.

domingo, 4 de setembro de 2011

A privatização da mente, a pobreza da imaginação e os distúrbios na Grã-Bretanha (4set2011)

The fool on the hill (John Lennon / Paul McCartney)
The Beatles

Por Paul Gilroy
The Dream of Safety


[Winston Silcott afirmou, em sua introdução, que se Londres tivesse um Estado de Bem-estar social como a Suécia, talvez os distúrbios não tivessem ocorrido]

Gilroy: Não quero que nos tornemos demasiadamente românticos sobre a Escandinávia... [aplausos]. A última vez que estive em Malmö havia um franco atirador com laser que disparava nas pessoas de cor nas ruas.

Quero dizer algumas coisas em solidariedade à gente que tem sofrido, às famílias - inclusive a família de Mark Duggan - que tanto têm perdido. Esta semana estava sentado no tribunal do magistrado em Highbury, vendo como o magistrado condenava a meses e meses pessoas que não tinham antecedentes criminais, inclusive sem escutá-las. E esses jovens, alguns não estavam com suas famílias, e sim sós, não poderiam ter sido defendidos com êxito nem sequer por alguém como Michael Mansfield. É uma vergonha o que está acontecendo lá. Para pesoas que foram acusadas de desordem violenta, 2 de cada 3 foram condenadas a prisão preventiva, e isso é um escândalo, não justiça.

Ouvimos muito surpresos nossos dirigentes políticos que dizem que não sabiam que isso ocorreria. Utilizo Twitter, e espero que vocês também, porque é uma forma útil de obter notícias agora, quando não assistimos tanta televisão. Uma pessoa que sigo no Twitter é o dirigente da federação da polícia. O dirigente da federação da polícia tem dito consistentemente que foi ver Theresa May (Secretária do Interior) na primavera deste ano, antes que começassem os protestos estudantis. Foi vê-la depois da eleição e disse-lhe que haveria problemas, e ela o desestimulou e disse que era alarmista. Portanto, penso que deveríamos explorar este problema do que significa pretender que não se sabia que algo ia suceder, quanto, na realidade, se sabia.


A pergunta é suportamente se houve política nesees distúrbios, ou se somente foi um grito pedindo ajuda ou um grito por coisas. E penso que a pergunta não deveria ser se houve polítca nesses distúrbios e saqueios, mas sim: há política neste país? Porque quando se tem três partidos que dizem o mesmo... [aplausos]... não há política na Grã-Bretanha. Há uma espécie de entretenimento, um pouco de teatro, que é apresentado às pessoas, ante o qual existe uma situação desesperada, que somente pode piorar e não pode ser simplesmente entendida a partir de uma perspectiva local. Não pode ser entendida simplesmente pelo que se sucede aqui - temos que pensar no que se sucede em outras partes do mundo afetadas pela crise.

Stafford Scott escreveu uma análise muito lúcida e brilhante em um jornal sobre o que acontece e considerou uma série de indicadores para tratar de compreender o que ocorre em nosso entorno: cifras de desemprego, cifras de exclusão das escolas, cifras de prisão e buscas... Em termos dessas coisas, as cifras são tão ruins ou piores do que eram há trinta anos.

Portanto, a tentação é dizer que é o mesmo jogo que faz trinta anos, ou vinte e cinco anos, e não é o mesmo jogo. Por exemplo, a polícia admitiu que havia feito cem mil varreduras segundo a nova legislação para terroristmo, e que dessas cem mil, nenhuma, nem uma só, produziu uma prisão segundo a legislação antiterrorista! Portanto, penso que há que se recordar que o jogo mudou.

E em 1981 havia um sentido de que sabiam que havia áreas particulares de Londres que eram locais que poderiam estourar a todo momento, e que a solução era algo muito complexo, que envolvia vigilância suave e escolas, etc. E o que temos visto desde 1981 é a militarização dessa estrutura. O sistema de justiça criminal e os lugares de encarceramento se converteram em lugares mais negros e morenos - os grupos de pessoas encarceradas neste país representam um fenômeno desproporcional.

Esses dados não me mostram, não me sugerem, que as pessoas, nossa gente, seja mais criminosa do que qualquer outra. O que me sugere é que foram submetidas a processos de criminalização.

Ora, em 1981 se podia falar de racismo. Um juiz recebeu a tarefa de ver como se desenrolaram os eventos de 1981 [distúrbios em Brixton, Handsworth, Leeds e Liverpool]. Disse que teve que discutir o tema do racismo em seu informe. Como era de se esperar, disse: "o racismo institucional?" - não sou um de seus amigos; somente digo que teve que encarar esse tema. E agora estamos em uma situação na qual todos dizem: "oh, racismo? Isso acabou-se. Isso era antes". E eu não creio que seja assim.

Quando se contempla a nata de dirigentes políticos de nossas comunidades, a geração que cresceu durante essa época há trinta anos, muitos deles aceitaram a lógica da privatização. Privatizaram  esse movimento, e venderam seus serviços como consultores e administradores ou treinadores da diversidade. Venderam seus serviços à polícia, venderam-nos  ao exército, venderam-nos ao mundo corporativo... Vejam alguns de seus sítios na internet e observarão o quão orgulhosos estão de seus clientes. E isso significa que, em muitas áreas, a perda de experiência e a perda de imaginação são um fenômeno massivo. Portanto, os jovens nos tribunais na atualidade não têm uma campanha de defesa. Ainda não têm uma, mas espero que se desenvolva alguma.

Portanto, grande parte dessa liderança foi canalizada ao governo local, e formou uma espécie de "consultoriado". E se quiserem compreender o que isso significa, terão que olhar lugares como a África do Sul, onde, no processo depois do apartheid, todo um estrato de militantes, todo um estrato do povo foi e obteve suas pensões e venderam isso, e venderam aquilo, porque o governo, ao mudar essa sociedade, pensou que ter uma classe média negra era o caminho para fazer as coisas. Bem, assim não vai funcionar aqui. [aplausos]

Essa privatização é também uma privatização da mente. Porque em 1981 não havia organizadores, não havia celulares, de modo que as pessoas não tinham toda essa distração digital. Não havia pornografia saturando o mundo pelo qual se movem os jovens, não havia um local onde depositar seus vídeos. São grandes mudanças.  Nos apontam algo que é importante para compreender a diferença entre então e agora.

A diferença entre 1981 e agora é que a relação entre a informação e o poder tem sido mudada, e nossas táticas para compreender nossa defesa de nossas comunidades têm que levar em conta essas mudanças. E isso significa que temos que pensar com muito cuidado quanto à forma como nos envolvemos com as mídias. Estou muito contente de que haja pessoas presentes que são distribuidoras independentes de informação e notícias, que fazem circular o que aqui acontece e fazem circular interpretações do que aconteceu neste país. Temos que fazer isso chegar às pessoas de fora de nosso país - temos que internacionalizar isso. Temos que pensar em de que formas a tecnologia pode trabalhar para nós. E as mídias não são algo transparente.

Porque o que se sucede na digitalização dos meios e na privatização é uma contração e um empobrecimento de nossos meios. As pessoas falam de "idiotizar" - não tem que ver somente com idiotas - é algo diferente. E isso significa que há um controle muito mais estrito sobre o que se pode dizer.

Essa tecnologia que é tão diferente da de 1981 também faz parte do que eu queria chamar, esta noite, uma seguricracia, que nos governa através da segurança. E isso significa que o DNA nos corpos de vocês, nas suas bocas, em raspagens de DNA, as câmeras de CCTV que aqui nos rodeiam... E, e é outra característica interessante da semana passada, a forma como funciona a interferência do operador. As mídias, de propriedade de gente como Murdock, têm uma "hora de ouro" depois que se conhece a história, que eles podem corrigir, e então essa história corrigida cresce, como uma bola de neve que rola ladeira abaixo numa montanha.

O que temos que compreender é que isso não acontece por acidente. Essas coisas são técnicas para que a informação tenha sentido, e temos que aprender sobre elas.

Uma das outras diferenças entre agora e trinta anos atrás, agora e há 25 anos, é que os distúrbios já não são somente um assunto de negros e brancos. É uma história que é complicada por todo tipo de mudanças em nossas cidades e nossas comunidades. É uma história que foi complicada pelo desenvolvimento do Istam político em nossas comunidades - quero dizer, se não fosse Ramadan, quem sabe que tipo de eventos diferentes poderiam ter sido desencadeados.

E já não é uma história que possa ser explicada somente mediante a referência a uma história caribenha, porque a maioria da população negra atual em nosso país é gente de origem africana, com uma gama de experiências diferentes, uma gama de diferentes histórias e motivos para estarem aqui. Temos uma quantidade de donos de pequenos negócios, comerciantes, muitos dos quais são imigrantes que chegaram de outro lugar, e que estão adotando a posição que os possuidores de negócios sempre adotaram, e não é surpreendente que eles cobrem por vigilância e outras coisas para proteger suas propriedades.

Nossa situação torna-se complexa em um sentido diferente pela presença de gente da Europa Oriental. Quero dizer, a mulher que saltou pela janela em Croydon - ela tinha vindo da Polônia para trabalhar na Libralândia, porque era uma vida melhor. Imaginem o que isso quer dizer, chegar da Polônia para trabalhar na Libralândia, por um salário mínimo, buscando uma vida melhor.

Portanto, também temos que reconhecer essas diferenças.

O governo quer introduzir novas leis para criminalizar o uso de máscaras. As únicas pessoas que podem realmente fugir usando máscaras em nossa sociedade agora mesmo é o grupo de apoio territorial [da polícia metropolitana]. [aplausos] Não ouço Jack Straw dizer: "Não posso ver suas caras". [risos] Portanto, isso me sugere que existe um padrão duplo nisto, e temos que insistir nisso.

E, certamente, as gangues em Londres, mas não estamos falando de gangues. E penso que Gary mencionou um bom ponto sobre os Estados Unidos. Estamos falando de pobreza, e uma das piores formas de probreza que nossa situação tem criado é a pobreza de imaginação. E o que ocorre neste país, e é algo que muitos de nós em nossas comunidades compartilhamos com [o primeiro ministro conservador] David Cameron, gostemos ou não. Quando sentimos o impacto de nossa pobreza de imaginação, dirigimo-nos ao que pensamos que seja o futuro, e isso é sempre os Estados Unidos.

Nunca pensei que um forum público estaria de acordo com Sir Hugh Orde, o chefe de polícia da Irlanda do Norte, mas ele diria claramente que não se trata de uma situação que vá ser eliminada pela infiltração estadunidense de técnicas.E penso que ele tem razão. Penso que devemos recordar isso antes de pensar que o cenário de Treinador Carter faça parte de nosso futuro e seja a solução dos problemas que nossa juventude enfrenta. [aplausos]

Se formos por esse caminho, orientar-nos-emos a uma sociedade que funcional sobre a base do encarceramento massivo. E isso não têm a ver somente com prisões maiores e mais abarrotadas, convertidas em máquinas para ganhar dinheiro de corporações privadas, mas também com converter suas escolas em prisões, e converter suas ruas em prisões, e converter sua comunidade em algo que se pareça muito mais com uma prisão. E não queremos essa sociedade fundada no encarceramento massivo. Esse não é nosso futuro. Não somos estadunidentes, não somos estadunidenses.

Por último, sugeriria que penso que temos que por David Lammy sob uma certa pressão, para que controle nossa informação, e não vá simplesmente correndo à Sky News e à BBC. Temos que submeter nossos representantes políticos a certa pressão. Eu vivo em Finsbury Park, não tão longe de Tottenham, de modo que sei onde vive David Lammy. É uma espécie de agitador estranho à comunidade de vocês. [risos]

A última coisa que quero dizer é que em 1981 e em 1985 sabíamos que enfrentávamos um sistema. Compreendíamos as partes interconectadas. Quando falo de pobreza da imaginação, quero dizer que estamos pensando como pessoas que enfocam essas coisas por meio de um prisma de um mundo privatizado. Somente pensamos nessas coisas como indivíduos, e não as vemos conectadas. A semana passada foi uma aula assombrosa, um texto elementar, para nos dar a oportunidade de compreender de que maneira essas coisas funcionam atualmente. Recordem-se dessa festa que todos tivemos, nos Costwolds... e todos estavam lá, os Milibands estavam lá, os trabalhadores estavam lá, o povo da televisão estava lá (não os da terra de David Starkeu, mas os de do Channel Four News), e todos estavam lá juntos, e nos dizem algo quando tantos se congregam dessa maneira.

Dizem-nos que são uma classe. E pensam e atuam e se conduzem como uma classe. Conversam entre eles, casam-se entre eles, vão aos mesmos lugares... E, sim, queremos atuar como um corpo, sim, queremos atuar em harmonia, temos que aprender algo da maneira como se comportam, inclusive questionarmos o que fazem.

Essas são as partes que posso ver nesse sistema, o papel da informação, da polícia, da privação, da desigualdade... E temos que esclarecer que possuímos os recursos de que necessitamos em nossa comunidade - somente temos que utilizá-los de uma maneira diferente. Obridado.

Fonte: http://dreamofsafety.blogspot.com/2011/08/paul-gilroy-speaks-on-riots-august-2011.html

Paul Gilroy é licenciado em Sociol´gia pela Universidade de Sussex em 1978, doutorou-se em Filosofia em 1986 pela Universidade de Birmingham. Foi professor da Univerdade de Essex, do Goldsmiths College e da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. É professor de Teoria Social na Escola de Economia de Londres.

Seus livros tratam de arte e cultura em geral e da música em especial da cultura afro-americana. Estendem-se ao racismo, nacionalismo e origem étnica da mesma, com ênfase especial dos fenômenos pós-coloniais. [http://www.lecturalia.com/autor/3267/paul-gilroy]

Traduzido do inglês para Rebelión por Germán Leyes. Traduzido do espanhol por Aquiles Lazzarotto.

Publicado hoje no sítio Rebelión (acesse por aqui ao texto em espanhol).

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